Trigésimo quarto escrito
Hoje pensando pensamentos sobre relações dentro-fora, casa-rua – mas não tanto numa perspectiva urbanística ou antropológica (alô Carlos Nelson, alô DaMatta), e sim na minha relação – ou até mesmo nas personas em casa e na rua, vê só. Morar no Centro tem uns negócios curiosos, é diferente aqui descer com roupa de ficar em casa do que seria no bairro – aqui eu estou rodeada de pessoas que se arrumaram para vir para cá, seja para trabalhar, pasa passear na Feira do Largo, para dar rolê à noite, e aí é tudo aquela juventude bonita. E eu às vezes não me sinto à vontade para me mostrar paera essse mundo toda requenguela, e isso me segura mais em casa do que a preguiça de sair. Existe uma fronteira, uma mediação, que não é só entre lugares, é entre mundos, entre personas, entre versões. Talvez isso fizesse menos sentido num bairro do que aqui no Centro. Também tem a imensa preguiça de trocar de roupa no frio – no verão eu desço ali de bobeira bem mais fácil – mas essa fronteira simbólica é sim uma super questão. Tem um dispêndio emocional de constituir a persona de sair, a Gui da rua, a do lado de fora. Isso é uma coisa que eu queria desconstruir. Mas é um negócio profundamente relacionado à transgeneridade. Até há bem pouco tempo, poucas semanas, eu seguia achando (embora tenha evidências no sentido contrário) que o reconhecimento da minha identidade depende quase inteiramente dos signos femininos. E não só as roupas – o rosto depilado é uma questão, e tem tantos fins de semana em que eu queria poupar esse esforço. Veja, eu consigo mais hoje do que antes – hoje mesmo fui ao mercado mesmo não depilando a cara desde sexta à tarde. Mas o que importa da reflexão de hoje é a percepção da pertinência dessa fronteira, desse espaço de mediação entre universos, que demanda um dispêndio de energia que nem sempre eu tenho. As fronteiras simbólicas são um dos meus grandes interesses acadêmicos, algum motivo há de ter. E são a parte que mais tenho que complementar naquele artigo que voltou com decisão editorial da Revista de Antropologia Ilha que está na minha caixa de e-mail tem três semanas.