Caderno de tanto

Trigésimo oitavo escrito

O Bigorrilho (Champagnat, ou champanhá, para os curitibocas) representa boa parte do que eu não gosto nesta cidade - apesar que, e sempre tenho que ser honesta, esse tipo de bairro é igualmente distribuído por tudo quanto é cidade grande deste país. Isto dito, tenho gostado cada vez mais de correr no Bigorrilho. São muitas opções de ruas, e descobrir novos caminhos é uma das minhas principais motivações para correr. Cada forma de se mover pela cidade oferece diferentes maneiras de se relacionar com os lugares, e a corrida tem suas particularidades. Tem topografias que só são passíveis de serem apreendidas quando a gente corre - foi correndo que eu entendi no corpo o topônimo informal "Alto São Francisco", subindo o final da Paula Gomes. O próprio Bigorrilho também tem lá suas ladeiras quando você menos espera. Apesar das topografias inesperadas que a gente descobre da pior maneira tendo a concordar com o postulado do Treinador PP segundo o qual correr é bom demais, ta maluco. Pela corrida eu vou me apropriando até dos lugares dos quais eu não gosto, talvez de alguma maneira transformando esses lugares meio que na marra. É uma ideia pretensiosa, mas eu gosto. Como um corpo que se sente dono das ruas de uma cidade se relaciona com a postura de enfrentamento que esse corpo aprendeu a portar quase o tempo inteiro? Brigar eu não sei, mas em correr da briga eu me garanto. As beligerâncias e as vulnerabilidades não só compartem o espaço do meu corpo, elas juntas me constróem de um jeito que só existe pela sua interação. O enfrentamento só é possível se houver espaços (que se impõem eu queira ou não) pra eu me mostrar vulnerável pros amores. E aí as choradeiras, e aí os abraços, e aí a carinha dele dando risada de mim de forma carinhosa, me imitando dizendo que eu sou beligerante, falando como a princesa delicada que sou. E o sorriso dele, e os olhos dele quando bate o sol. E é tudo sobre o quão vulnerável ele me permite ser. Sarnas que a gente arranja pra se coçar. T4T. A gente merece ser amades.