Sexto escrito não indexado
Todos os dias mato dezenas de formigas-de-cozinha, acabo com dezenas de vidas como quem olha nos olhos de Deus e pragueja contra a própria Criação. Esmago-as com meus dedos com uma fúria insana que só pode ter sido colocada em mim pelo próprio Diabo. Em sua marcha cínica as formigas-de-cozinha podem até promover diálogos absurdos entre o Bem e o Mal, Mas não adianta de nada. As formigas-de-cozinha venceram, vencem e vencerão. Quando tivermos feito a Revolução, quando tivermos emancipado a classe trabalhadora de seus grilhões, quando todes puderem usufruir dos frutos de nosso trabalho, as formigas-de-cozinha estarão reinando impávidas sobre nossos balcões e mesas e pias, indiferentes à memória esmaecida da burguesia, tirando sarro das disputas na cúpula do Partido, como a lembrar-nos, com um risinho sarcástico, da nossa pequeneza. Mais do que encontros entre o Bem e o Mal, as formigas-de-cozinha representam a indiferença do Universo.
Se o Universo é indiferente e caótico e nada faz sentido, e tudo então é uma sucessão de acasos e coincidências, aleatórias como o rumo das formigas, então é sobre esses acasos e coincidências que eu escrevo agora na hora do almoço de uma segunda-feira em que ninguém mais aguenta o ano corrente. E pensando aqui, esses acasos e coincidências têm nome e sobrenome. Se eu não tivesse ido pro meu trabalho atual em janeiro eu não teria passado pelas merdas que passei entre setembro e outubro e não teria descido pra beber sozinha naquele domingo. E se tivesse ido ao bar poderia ter ido a outro bar se não morasse neste apartamento, em que só pude morar porque uma das minhas melhores amigas no meu trabalho antigo já foi corretora e me deu as manhas para conseguir o financiamento mesmo não tendo juntado o suficiente para a entrada (detalhes podem nos comprometer). Mas eu não teria mudado pro meu trabalho atual em janeiro se não fossem as amizades que construí nesta cidade ao longo desses anos. Eu não teria vindo pra esta cidade se não tivesse, em 2016, sob influência da minha então namorada socióloga, decidido fazer mestrado em Antropologia, e não teria ido fazer mestrado em Antropologia em Pelotas se não fosse por ter ido anos antes a Pelotas com amigas do movimento estudantil para um evento e conhecido a professora que anos depois seria minha orientadora, e sem o mestrado eu não teria passado no concurso que pontuava mestrado. Eu não teria conhecido a namorada socióloga se não tivesse feito aquela amizade no terceirão com a amiga que me apresentou a ela dez anos depois, amizade que eu só fiz porque quis ir estudar na mesma escola que minha então namorada lá em 2006. E aí eu fico lembrando daquela música do Jorge Drexler (meu marido) em que ele diz que cada uno dá lo que recibe y luego recibe lo que dá, e que nada es más simples, e que no hay outra norma, nada se pierde, todo se transforma. E essas pessoas todas talvez nunca cheguem a saber o quanto elas transformaram aquela uma tarde de domingo em que eu estava triste em casa e saí pra correr sob o sol das três da tarde com 29 graus e voltei frustrada e fui beber sozinha. E talvez ele mesmo, ele que eu conheci naquele domingo, nunca tenha a real dimensão do quanto ele já transformou em mim. E eu nunca vou saber o que posso ou não ter transformado nele e em tantas outras pessoas que me levaram daqui pra lá e de lá pra cá.
Não sei de dá tempo agora na hora do almoço de ir naquela loja na Rui Barbosa comprar veneno pra formiga. Talvez desse tempo se eu não ficasse aqui escrevendo abobrinha sobre formiga.