Quinquagésimo terceiro escrito
As coisas elas não param de acontecer. Mas calhou que muitas delas estão parecendo entrar em fases decisivas juntas, como se fosse final de livro ou de novela ou de série, e eu estou refletindo sobre até que ponto é minha cabecinha criativa que está organizando as coisas em torno dessa perspectiva de fases decisivas. Tenho lembrado muito do livro Trégua, do Pedro Oliver Maia - a verdade é que as histórias no fim dos livros e em momentos das nossas vidas elas não se encerram, elas oferecem pra gente momentos de respiro, pra gente poder parar um pouco antes de retomar. E acho que estou ansiando por essa trégua.
Em um intervalo de poucos dias tenho vivido momentos chave de consolidação de processos e ao mesmo tempo o início de novos ciclos que são muito importantes pra mim. Nenhum desses processos que têm momentos chave se encerram aqui, mas os momentos chave, quero acreditar, oferecem tréguas. Da mesma maneira os inícios de ciclos vêm com calma, como a preparar coisas grandes que vão acontecer só um pouco mais pra frente. Não sei se essa trégua é uma forçação de barra da minha cabeça - a nossa mania de ordenar, de organizar, pra dar sentido às coisas, é na maior parte das vezes pouco mais que uma ficção. Uma parte de mim quer poder simplesmente responder que "sim!" quando perguntada se dormiu bem e se está tudo bem sem um imenso asterisco de um evento importante que está se aproximando.
A defesa não encerra o doutorado, mas marca um momento de validação e consolidação que deixa as últimas etapas parecem mais facinhas de se resolver. O tratamento inovador e tão aguardado de uma doença degenerativa não vai fazer com que o corpo viva sem essa doença, mas ajuda a dar um senso de ponto de chegada de um momento de incertezas que foi muito dolorido. Uma conversa importante que eu esperei mais de um ano pra ter não encerra um processo - na verdade inicia outro - mas tira um peso gigantesco das minhas costas. Da mesma maneira o início de novos ciclos - na minha vida, e, principalmente, nas vidas das pessoas mais importantes pra mim - traz mais novos eventos do que sossegos, mas o início dá o alívio de saber que o esforço para começar deu certo, e uma calmaria antes que o bicho comece a pegar pra valer nesses novos ciclos.
Quando comecei meu atual processo de terapia uns anos atrás eu acionava com frequência a categoria do sossego como um lugar que desejava alcançar. Atualmente a ideia de trégua ocupa o espaço que era do sossego. E tenho tentado moderar as expectativas sobre a possibilidade de essa trégua realmente se instalar. Enquanto isso, seja como for, vou fazer o que tenho que fazer - correr, amar, ver o céu, o que quer que dê sentido aos dias para que sejam mais do que interstícios entre grandes eventos e afetos.