Quinquagésimo segundo escrito
Numa das primeiras vezes que voltei de Florianópolis a Curitiba após me mudar pra cá, numa noite qualquer no taxi indo da rodoviária pro prédio onde morava, lembro que o taxi subiu pela Marechal Floriano e eu vi a praça Carlos Gomes e fiquei tipo que praça é essa que eu ainda não conheci. Lembro também que, também em 2022, após o Brasil golear a Coreia do Sul nas oitavas da Copa do Mundo, eu e amigues saímos andando a esmo pelo Centro e eu fiquei muito surpresa de constatar quão próximos entre si eram lugares aos quais eu havia ido em ocasiões distintas por meios distintos. Pra mim a avenida dos Chorões era em outro canto da cidade, eu não tinha entendido que ali era Centro. Também naquele ano eu e meu irmão fomos de uber ao Oidê, que hoje é parte dos meus trajetos de corridas curtas com frequência. E aí aos poucos as conexões foram se formando, o mapa foi se desenhando e eu fui entendendo tudo o que dá pra fazer a pé. Mapear a cidade é legal. Mas mais legal é quando cada um desses lugares passa a ter uma memória ou um conjunto de memórias que vai lhes dando outros sentidos. A praça Carlos Gomes não é um topônimo, é um lugar onde eu senti muitas coisas diferentes em momentos muito diferentes (e por onde eu passo com alguma frequência). Em cada esquina dos lugares esquisitos desta cidade tenho que cuidar pra não tropeçar em histórias e sentimentos que fui deixando aos pouquinhos. E assim a cidade que eu achava que era de plástico foi virando uma cidade de verdade, formada por afetos e cicatrizes de vidas muito reais que se impõem à pretensa objetividade da cartografia. Passados três anos e nove meses a sensação é de que a invenção de uma cidade é um processo absolutamente impossível de ser controlado, e que bom que seja assim.