Quinquagésimo primeiro escrito
É que pra reconhecer que você tá carregando coisa demais você precisa reconhecer que tem o direito a sentir coisas, que as coisas que você sente têm o direito a serem sentidas, que as coisas que você carrega têm legitimidade. Acho que é aí que entra a pira do acolhimento. Eu tava numas de que ah eu me acolho sim, porque tipo, eu me cuido, eu faço coisas por mim, eu tiro tempos pra mim. Mas o acolhimento agora me parece muito mais sobre reconhecer que as coisas que eu sinto são válidas, que meus problemas não são uma grande besteira. Eu tenho o direito de sofrer também, tipo, mesmo que seja pra sofrer com essas minhas bobagens. No dia em que eu reconhecer que as coisas que eu carrego são demais aí eu posso me dar o direito a pedir um minuto ou cinco minutos ou três semanas pra parar, reorganizar as bagagens, me esticar, tomar uma água, descansar, antes de seguir. No dia em que eu reconhecer eu posso ser capaz de bancar, pra pessoa com quem eu to, seja quem for, que tá demais, que tá foda, que eu preciso parar um pouco, se achar ruim é dois trabalho. Porque se eu não parar eu sei o que acontece. E o louco é que eu sei a minha vida inteira o que acontece. Eu conheço essa sensação física, no corpo, na pele, há trinta e sei lá quantos anos. Eu sei o que está pra vir quando sobe aquele negócio por dentro. E mesmo assim eu sigo bem quieta, só ficando meio distante, meio esquisita, com essa cara de pamonha, e tentando dar conta, até a hora que dá ruim. Tudo porque eu não reconheço que o peso tá demais, porque eu acho que é besteira, que eu não tenho o direito a sentir essas coisas todas que eu sinto. Autoconhecimento é o maior barato, mas cair nas mesmas armadilhas de sempre perdeu a graça.