Caderno de tanto

Quinquagésimo escrito

2 de janeiro (de vinte e seis)

Começar o ano mentindo pros (...) que estavam fazendo graça aqui no prédio só pode ser auspicioso. Emendar no Boi Brabo é também bom sinal. Os horrores hão de persistir, mas eu comecei este ano particularmente teimosa. Então boa sorte pros horrores. Dois trabalho.

O mundo é nosso. Nós somos a versão mais atualizada. Com alguns bugs e manutenção complexa, mas com uma vontade de viver que o modelo anterior talvez nunca venha a entender.

Parece que vem um senso de uma absurda altivez quando este corpo se nega à vulnerabilidade e assume essa posição firme, essa coisa de respirar fundo e encarar. Só que essa suposta altivez é um autoboicote autodestrutivo, que quando vê já foi. Tem uma satisfação estranha que convive (dialeticamente) com o aperto no peito. Se não tivesse satisfação eu não fazia, né? Não corria até doer as pernas se não me desse prazer. A diferença é que correr faz ALGUM bem pra mim.

A paixão arrebatadora dos primeiros dias tem início, meio e fim, isso é canônico. Embora eu não saiba quantas vezes já tenha sentido isso desse jeito. Acho que duas? Mas uma aos quinze anos. E o que ficou é um amor tão tão tão grande. Como eu amo aquela pessoa linda e fofa.

Quando não estamos juntes minha mente (raramente tão lúcida e fértil) fica colocando em dúvida se ele me ama também. E chego perto e lembro que sim, absurdamente sim. E saio de perto e fico mas não é possível isso. Mas do que eu sinto eu sei.

A ironia, o sarcasmo ou a dialética: agora que eu tenho peitos uso bem menos sutiã do que quando não tinha. Mais um capítulo da distorção da malha do espaço-tempo. Foi sem sutiã e sem maquiagem que vim ao Boi Brabo ~três meses atrás, então quem sou eu pra.

Agora no Janaino do Largo (em vez de no da São Francisco, só pra dar um rolê) esperando meu ranguinho e tomando uma saideira. Todas as pessoas que estão aqui estão nas mesas na rua, só eu dentro. Eu, o menino do caixa e a menina da chopeira. Mais tarde vai ter DJ e isso aqui deve ferver. Mas agora só nós e um ventilador muito forte, que à noite quando ferver vai ser uma bença, mas que agora parece forte demais. Me lembra a época (a própria sensação física) de entrar no Blues Velvet na hora em que abria.

A juventude vai começar a pensar em sair de casa quando eu já estiver de (terceiro (não estou reclamando)) banho tomado, de pijama e tendo jantado meu pão com bolinho. E me sinto estranhamente confortável nesse lugar de estar sempre a centímetros do rolê, mas ainda fora do rolê. Há quantos e quantos anos com ventiladores fortes demais.