Quinguagésimo sexto escrito
Não precisa minha mão toda esfolada pra eu saber que não há para onde voltar – que escrever no caderno com meia luz e incenso ouvindo Sharon van Etten no sofá denominado O Indigno não é o mesmo agora, 31 de março, que fora lá em, bom, entre abril e, não sei, outubro? Épocas próximas, garotas tão diferentes. Gratidão a cada uma, acolhimento àquela. Olho para as garotas chorando que fui (e voltarei a ser em algum momento), inclusive para aquela de exata uma semana atrás, e o que sinto é, sim, vai, um desejo de acolher, mas, mais que isso, um respeito profundo. Respeito por seu direito a sofrer, a ficar vulnerável, a não conseguir enfrentar o mundo sozinha. E é aí aquela coisa curiosa de não conseguir fazer gracinhas (saudáveis) sobre a terça passada sem sentir que estou desrespeitando aquela garota desamparada chorando na calçada da Brigadeiro Franco. Tenho lembrado muito que respeito minhas lágrimas mas ainda mais minhas risadas. Não sei se consigo. Agora, agorinha. Meter essa. Com meus peitos que carregam habilmente tantas dores de tantos tipos. Tenho saudades daquelas dores do ano passado. Carinho por aquela garota descobrindo aquelas dores. E descobrindo o amor subindo as escadas de um predinho em um conjunto labiríntico e fotogênico no Portão quase como quem vai pro Fazendinha. Os cheiros são implacáveis, né?
Eu posso separar? Falar na terceira pessoa? Eu sou aquelas garotas todas? Acho que sim, mas de alguma maneira elas continuam existindo noutro plano? Curtindo ir pro trabalho sem se maquiar por ter dormido pela primeira vez (ou segunda ou terceira) na casa dele. Curtindo andar por São Paulo sem maquiagem por estar sentindo que a combinação do leiser com a ciproterona trazia resultados. Chorando ao constatar que também esses resultados eram passageiros. Ecrevendo nesta sala em outros tantos cadernso em momentos em que este mesmo gesto neste mesmo cenário tinha outros sentidos. E eu senti tantas coisas. Essas garotas sentem tantas coisas. Um dia serei uma garota por quem, espero, outra garota mais foda que eu terá respeito e acolhimento. Com meus cheiros, cores e machucados (uns mais visíveis, outros menos).
Não era nada disso que eu ia escrever hoje. Mas se eu não escrevi o que pensei voltando da farmácia na semana passada, acho, ficou pra trás, caindo pelos degraus da escada do prédio. Não são todos os ruídos que este caderno absorve, afinal de contas.
E estes são escritos da trégua de março de 2026. Que na terça passada, correndo na Sete de Setembro, instantes antes de virar na Brigadeiro Franco, eu me perguntava se havia acabado, se eu estava testando limites, se a trégua seria o tema do título da corrida no strava. Depois na cadeira da dentista pensei em mudar o título da corrida para “A Última”. Que bom que não fiz isso. Ainda na Sete eu pensava que quando chegasse em casa ia botar para tocar o Uma Outra Estação, aquele disco póstumo da Legião. Bom, mas aí eu virei na Brigadeiro Franco. Passei por outras pessoas correndo. Por uma pessoa comprando um salgado no jornaleiro ao lado do portão da Oswaldo Cruz, que não é uma praça, e tudo bem.
E tudo bem. A trégua segue de pé.