Quadragésimo terceiro escrito
30 de novembro. Falta tomada nesta casa. Constataando isso num raro dia em que queria ligar o ventilador aqui na sala. Pós almoço, se é que dá pra chamar de almoço o que almocei. Em dois dias (menos que isso) viajo e fico duas semanas fora, então casa desabastecida. A consciência de que não há para onde voltar, mas a sensação implacável. Isso de ter saudade da infância ou adolescência é meio coisa de gente cis né, mas não dá pra fingir que não tenho um afeto enorme por aquelas tardes vagando pelo Centro em 2005, descobrindo os amores, as muitas formas de amar e de mostrar meu amor. As possibilidades destravadas do toque, dos abraços, dos sorrisos, das palavras sinceras, acompanhadas de uma renúncia à masculinidade que tão rápido sofreria um recuo dolorido – eu diria que a partir ali de 2007, vai. Ta calor. Hoje suei horrores. Treino é disciplina, disciplina é autoindulgência. Mas dá uma satisfação. Dialética. O passado tangível não implica – ainda bem – uma possibilidade de retorno. A tangibilidade, a materialidade, não implicam cristalização – esse passado é um objeto maleável que eu carrego e vou mexendo e deixando que faça sentir coisas diferentes com forme varia sua forma.