Quadragésimo sétimo escrito
Normalmente sou eu a primeira a questionar e tensionar fronteiras. Ah porque nossa o que é o dentro o que é o fora. Vai vendo. É sempre essa mesma conversa. E eu gósto né desse papo de porosidade, de fronteiras móveis, agenciadas por ambos lados de maneiras dialéticas. Mas categorias às vezes são o quê são úteis. Eu posso e vou questionar as fronteiras entre mim e meu entorno, vou dizer que é absurda a ideia de olhar pra fora sem olhar pra dentro ou vice-versa, mas categorizar os momentos e entender quando olhei mais dum jeito ou mais de outro é útil. Foi útil na última sessão de terapia do ano, e a última antes de sete quartas-feiras das merecidas férias da psicóloga que me acompanha há dois anos e meio. Porque tem isso né. Isso de olhar pra dentro, olhar pra fora. A contradição aqui é que a mesma antropóloga que tensiona fronteiras e categorizações é uma grande entusiasta de planilhas e cronologias. E delinear no tempo processos históricos é uma baita curtição. E eu consegui identificar, acho, três grandes momentos em que direcionei meu olhar mais pra dentro, e sempre tem alguma coisa de escrita nesses momentos, o que é uma pira. E sempre tem pessoas queridas que não sabem o tamanho do papel que têm nessas alternâncias de olhares. Em 2005 foi a partir de maio, os .txt se multiplicaram, o cabelo cresceu, os gestos mudaram, e tanta coisa podia ter mudado mais, mas cada coisa no seu tempo e contexto. Em 2016 o descalabro diante do mundo, em outubro a necessidade de fechar, encarar de frente tudo o que há de mais bonito em mim, e que eu fiz questão de esconder de mim e do mundo, por meio de gestos que machucaram pessoas queridas, e as linhas se multiplicando em grafite e nanquim em cadernos. E em 2025, bom, tudo o que foi 2025. E aí as contradições se acumulam, porque nesses três momentos essa alternância de olhar me levou a lugares de poder me colocar vulnerável diante dos amores, e a vida foi ficando agitada, e os cadernos foram ficando esquecidos e os olhares foram voltando só pro lado de fora das fronteiras de mentirinha. Nada é natural, nada está dado, os próximos tempos podem ser de gestos conscientes. Uma vez a cada dez anos dou essa sorte, posso não largar dessa vez, né?