Caderno de tanto

Quadragésimo segundo escrito

Hoje seria 23 de novembro, se fosse o caso de hoje ser um dia, se o ano já não tivesse se transformado numa fantasia cada vez mais difícil de acreditar. Sentada aqui no sofá com incenso aceso pelo mesmo isqueiro que acendera o beque minutos antes. Sendo atravessada pelos trilhões de afetos da psique vindos de todos os lados como são as trilhões de sinapses da nossa gelatina acinzentada e de todo o resto dos corpos que seguimos inventando e acreditando que sempre estiveram ali. Os corpos, as sinapses, os afetos. Entre os afetos os corpos e as sinapses. A cada afeto que atravessa um trajeto no meu corpo aquele trajeto já não é o que era, é reconstituído de maneira parecida mas ao mesmo tempo completamente diferente. E a gente ali sem nem perceber. Não que eu perceba, eu só resolvi tomar conhecimento. Resolvi que os afetos são cor-de-rosa.

O negócio é que eu acho que me acolho. Ou isso ou (mais provável) eu nem sei o que quer dizer isso. Só quero que a próxima semana passe suave. Mas tudo me leva a crer que será precisamente o contrário. Decidi que o ano acaba 28 de novembro.