Caderno de tanto

Quadragésimo quinto escrito

Às vezes quando corro me sinto perigosamente invulnerável. Perigosamente porque, bom, a consciência da vulnerabilidade é importante. Tudo o que os perigos querem é que a gente ignore os perigos. Dois mil e vinte e cinco foi (já dá pra dizer ‘foi’ né?, treze de dezembro, quem fez fez, quem não fez só ano que vem) um ano em que eu precisei me revestir de uma sensação de invulnerabilidade pra poder encarar o mundo, e meio que deu certo, mas só por um tempo. Neste ano aprendi a ter raiva, muita raiva, a encarar olhando feio, olho no olho do ciclone, tenta a sorte pra tu ver. Passei a entender a insuportável retórica da coragem a que nós pessoas trans estamos sempre submetidas. E assim, foi necessário, foi bom, mas cansa rápido. Manter a postura firme tensiona o corpo, não dá pra sustentar muito tempo. Redescobrir a vulnerabilidade foi a melhor coisa que esses três meses finais deste ano me trouxeram. Depois de ter feito tudo o que fiz pelas ruas de verdade desta cidade de mentira (literalmente só existir, o que requer muita energia), minha fragilidade passou a ter outros significados, e isso foi muito bom. Tem sido muito bom. No fim das contas sempre deve existir um tipo de um equilíbrio que estamos procurando. Ser vulnerável e frágil já não significa que vou me sujeitar. Ainda não entendi o que ela disse quando falou que minha doçura pode ser minha fortaleza, mas mesmo sem entender acho que faz muito sentido. A redescoberta das vulnerabilidades não implica voltar para algum lugar, já que, e muita ênfase nisso, não há para onde voltar. Repetir sempre que não há para onde voltar.

Mas que é bom correr em lugares da cidade pouco recomendáveis é bom viu. O bom de correr é que se precisar correr já estou correndo mesmo.