Quadragésimo oitavo escrito
25 de dezembro Impressionante constatar que o incenso já tem cheiro de nostalgia, que determinados momentos deste ano já são um passado que tem cheiro. Pegar o caderno com a caneta vermelha sob incenso e meia-luz hoje está estranhamento desconfortável. E não é porque está um calor do caralho (o ventilador no máximo é um elemento novo desta cena), mas porque já me transporta para um momento do passado de absurda intensidade emocional. O tempo voa quando a gente toma no cu, digo, quando a gente se diverte, mas o que eu queria dizer mesmo é que o tempo voa mesmo é quando as coisas mudam. Eu podia hoje estar em um lugar parecido com aquele, e aí teria uma continuidade, aquele meio do ano não seria um passado com cheiro, seria ainda parte de hoje; é tudo ter mudado tanto que coloca este cenário como evocador de uma nostalgia estranha. E a palavra “estranha” tem aqui muitas camadas. Porque apesar do trauma da forma como tudo mudou, e apesar das tempestades que deixaram cicatrizes, foi uma época de potência, de orgulho, de querer me mostrar pro mundo. Mas hoje aquele parece outro mundo, e um mundo que faz parte daquele grande universo cheio de mundos para os quais eu não quero voltar. Troquei as ansiedades de lá pelas de cá, e, embora as de cá também doam, eu acho que estou mais perto de casa (A ansiedade é metamórfica, tem admirável capacidade de adaptação). Tão impressionante quanto a intensidade de 2025 é a intensidade da mudança de outubro pra cá. Ali todo um universo começou a se construir (e quando este universo virar um passado com cheiro eu sei bem qual é o cheiro) de forma palpável, tátil. A vulnerabilidade ganhou lugar, meu rosto mudou, meu corpo se impôs, e eu deixei que o amor voltasse a conduzir os dias, mesmo sabendo do preço (muito baixo) que ele cobra. A descoberta de que a vulnerabilidade alimenta a autoestima ainda me deixa boladíssima. Respirar fundo, deixar entrar o sentimento provocado pelo cheiro de um passado muito recente e muito distante que ainda vai me provocar tantos afetos. Encontrar a paz com aquela garota tempestuosa, raivosa, beligerante e ansiosa de anteontem, agradecer a ela por tudo, e dizer a ela que mundos melhores virão.