Caderno de tanto

Primeira anedota - homenagem a'O Indigno

Quando mudei para Curitiba no infernal inverno de 2022 mudei para um apartamento mobiliado. Na hora em que entrei decidi que era esse, ainda na porta eu decidi. Quase não dei bola para os móveis de mau gosto, nem reparei que não tinha geladeira (só perceberia na minha primeira noite no apartamento quando estava no mercado), e mal olhei para um sofá com uma capa azul horrorosa no segundo quarto (sim, tinha dois quartos), só achei conveniente ter um sofá-cama. Mas quando tirei a capa para descobrir qual era o mecanismo de abertura do sofá-cama, dias antes da visita de uma amiga, que aconteceu duas semanas depois da minha mudança, constatei que o estofado estava não menos que lamentável, mastigado por alguma criatura em um passado recente. Fotografei o coitado do sofá-cama e enviei as fotografias para a imobiliária, pedindo autorização para me desfazer dele - a ideia era comprar um novo quando pudesse, já prevendo uma futura (e ora distante) mudança para um apartamento que não fosse mobiliado. Quando minha amiga chegou falei que ela dormiria na minha cama e eu no sofá da sala. Mas ela me mostrou que o sofá-cama funcionava perfeitamente, e estava na verdade em bom estado, com exceção da situação deplorável do estofado. Eu argumentei que esse móvel não era digno de receber sua presença, mas ela insistiu, revestiu o estofado com um lençol de elástico e dormiu naquele que ali foi batizado de O Indigno. Poucas semanas depois recebi a primeira visita da minha mãe, que reproduziu o gesto da minha amiga. Se minha própria mãe dormiu n'O Indigno alguma qualidade ele devia ter. Optei por não me livrar dele, afinal de contas. Passaram-se dois anos naquele apartamento que me traz várias boas memórias antes que eu me mudasse para meia quadra ao lado, para um apartamento agora completamente vazio que me caberia mobilizar - meu único móvel próprio era a geladeira, por motivos, além de itens prosaicos como um abajur. Quando fui à imobiliária para as tratativas de devolução do apartamento expliquei que o sofá-cama ainda estava lá; mas a atendente me explicou que, em virtude de questões inerentes a'O Sistema, quando o apartamento fosse devolvido aquele sofá-cama não poderia estar dentro dele. E foi assim que, sem querer, totalmente sem querer, eu roubei O Indigno. Afanei. Surrupiei. Levei para meu apartamento novo - apesar do estado indefensável de seu estofado, considerando os gastos com móveis calculei que seria conveniente já ter pelo menos um sofá. E, com um tecido de chita charmosinho por cima, usei muito O Indigno no novo apartamento, já que aqui ele passou a ocupar o espaço nobre de Sofá da Sala, em vez do papel coadjuvante de sofá-cama do quarto de visitas raramente usado. Sobre O Indigno escrevi quase todos os postes deste blogue, vi séries e filmes, tomei umas, fumei outros, recebi meu namorado nos nossos primeiros dias. E foi com ele que me convenci, ano e meio após a mudança, de que o papel d'O Indigno estava chegando ao fim. Não pelo estofado devorado, mas por sua própria configuração volumétrica - não era, afinal, um sofá pronto para receber duas pessoas. E então chegou o momento. Fomos a várias dessas lojas de móveis entre Novo Mundo e Capão Raso e escolhemos (assim, no plural, já que afinal) o novo sofá. Livrar-me d'O Indigno foi mais difícil do que eu imaginava. Ele foi sumariamente rejeitado em todos os espaços em que o ofereci - compreensível, por seu aspecto inóspito. Nem Centro Acadêmico de curso de humanas de federal quis. Solicitei que a Prefeitura o recolhesse como entulho - um fim indigno para O Indigno - e em uma manhã de quarta o carregamos juntes pelas escadas do prédio até a calçada da Rua São Francisco. Foi na calçada que me despedi d'O Indigno, sem grande cerimônia. Poucos minutos depois ele havia sido levado - duvido que pela Prefeitura Municipal. Minha mãe resolveu que o sofá novo se chama O Digníssimo.