outras ruas bonitas da cidade
Tenho me sentido no início de um filme que retrata um evento histórico. No início do filme você acompanha personagens vivendo inadvertidamente os últimos momentos de um mundo prestes a passar por uma grande transformação, quase sempre traumática, às vezes trágica. Bem dizer, a primeira vez que me senti assim foi em dois mil e quinze, e acho que naquele caso a sensação já foi validada pela sequência de eventos. Mas a sensação persiste, assim com os horrores persistem, assim como eu persisto sei lá de que jeito.
Essa introdução é sobre o estado geral de coisas, é sobre o mundo, é sobre o Brasil a menos de um mês das eleições de 2026, mas também é sobre andar pelo Centro de Curitiba. O colapso da minha sanidade terá sido causado pela recorrência cada vez mais frequente de menções ao "repovoamento", "revitalização" ou "reocupação" do Centro, cujo discurso me faz me perguntar se eu existo, se existem mesmo as centenas de pessoas por quem cruzo cotidianamente pela manhã, à tarde e à noite, na Quinze, na Carlos Gomes, na Marechal Floriano, no Largo da Ordem, na Riachuelo, na Sete, em dias de semana, sábados e domingos. Bom, talvez para os planos a maior parte de nós realmente não exista, e seja para que nós realmente não existamos mais que o projeto Curitiba de Volta ao Centro tenha sido concebido. Isso explica muita coisa.
Na continuação dessas memórias do futuro quero mais uma vez remeter a minhas primeiras semanas como moradora do vazio, decrépito e perigosíssimo Centro de Curitiba. Em uma noite estranhamente quente de agosto de 2022 desci sozinha usando uma blusinha curta e uma calça molinha que havia comprado na Feira do Largo dias antes para achar alguma coisa pra comer. Achei sem querer o Viva La Vegan, em frente ao Solar do Barão. Era um lugar bem pequeno, não lembro se com duas ou três mesas. A atendente ainda usava máscara, remetendo a um passado recente traumático que eu queria fingir que não tinha acontecido. Bom, pra mim era passado, pra ela era presente. E certa ela, eu que lide com meus traumas. Encontrei um nerd que estava ali sozinho, e acabamos jantando juntes. Ele trabalhava para a empresa que operava o Trello, e isso nos deu assunto. Mas a qualidade do hamburguer me deixou espantadíssima. Pouco depois o Viva se mudou para um lugar muito maior, perto da praça do casal pelado. Já vamos voltar ao Viva.
Na praça do casal pelado abriu pouco depois de eu chegar a Curitiba o Cataia, iniciativa do Gui e da Josi, ele curitibano (acho), ela de Friburgo (que é como chamamos Nova Friburgo no Rio). Foi no Cataia que vimos o Brasil golear a Coreia do Sul nas oitavas e depois cair traumaticamente para a Croácia nas quartas da Copa de 22. Foi no Cataia que tive muitas noites com muitas pessoas queridas, às vezes a duas, às vezes com multidões. Foi no Cataia que tive meu primeiro encontro com a pessoa em quem lancei minha melhor cantada no Boi Brabo (vide postagem anterior). O Gui fez parte do Centro Vivo, movimento pautado pela falta de projetos da prefeitura para o Centro - que saudade de quando a prefeitura não tinha projetos para o Centro, éramos felizes e não sabíamos. A primeira vez em que fui ao novo Viva foi após um dos nossos rolês do Centro Vivo, para almoçar o PF do dia, por iniciativa da amiga da minha colega que dois anos antes havia me apresentado ao Janaino. Voltaria a fazer isso muitas mais vezes.
Pouco tempo depois abriu bem em frente ao Cataia o Love City, um galpão com uma pista de skate, choperias, hamburguerias e um lugar de yakisoba que era onde o nerd pretendia comer originalmente naquela noite, quando o Viva ficava na frente do Solar e o lugar de yakisoba ficava na Trajano e o Love City não existia. Foi no Love City que fizemos a segunda edição do UrBéra, em que eu falei coisas no microfone totalmente bêbada. A terceira edição, em formato de world café, acabou sendo mais interessante - por minha iniciativa fizemos no Viva, no novo Viva, grandão, contando com a gentileza e apoio da Fernanda, que se mistura aes trabalhadores da lanchonete de segunda a sábado. Foi mais legal porque não havia microfone e houve mais debate. Mas também fiquei completamente bêbada. Bom, o evento se chama UrBéra - pra quem não sabe béra é como curitibanes chamam cerveja, tipo breja em São Paulo ou polar em Porto Alegre.
Quem também mudou de lugar no tempo em que moro aqui foi o Páprica. A primeira vez que fui foi após o título da Argentina na Copa de 22, ocasião em que eu estava completamente bêbada - ainda bem que hoje isso é bem menos frequente, pensando agora. Fui com três pessoas queridas sem saber que quatro anos depois teria uma briga feia com uma delas no Missal Shawarma (que merece menção num posto futuro), em frente ao que seria o novo endereço do Páprica dali uns anos. Foi o lugar do meu terceiro encontro com a pessoa com quem eu havia tido meu primeiro encontro no Cataia e segundo no Manifesto (outro lugar que merece ser incluído nessa memória do presente do Centro). A Marcela segurou a barra da mudança da Francisco Torres sei lá como, e conseguiu construir um novo espaço na Nilo Cairo, em frente ao Missal, ali pros lados do icônico Guadalupe, na mesma rua do Queen's (que merece também uma menção). Existe um tom de heroísmo em todos os estabelecimentos veganos do Centro de Curitiba, e que bom que existe, porque o Páprica também tem um sanduíche muitíssimo digno de toda, tornando-se parte da minha (e nossa) vivência do Centro apesar de ser meio fora do circuitinho Cataia-Janaino-Folia (do Folia eu falo em outro post).
A história do Centro que conheci e que pode estar se despedaçando tem uma interface muito grande com o veganismo em Curitiba, pensando o Semente, os Janainos, o Viva e o Páprica, além de tantos lugares vegetarianos desta cidade, e lugares que têm boas opções veganas no cardápio.
Ainda tem muita coisa pra falar. Mas quem sabe em outros escritos despretensiosos (espero que sejam despretensiosos) assistindo de camarote à realização da profecia do esvaziamento, abandono e perigo que fundamentam o Curitiba de Volta ao Centro.