Oitavo escrito não indexado
Chegar em casa depois de meros nove dias fora e sentir nostalgia não era o que eu esperava. A nostalgia normalmente é reservada a momentos já distantes na história e na vida, não a um retorno a casa. Mas, bom, tem dias que levam semanas para passar, para o bem e para o mal. Desde a ideia de propor as grafias Agaú e uteí para siglas conhecidas se passaram diferentes tempos a depender do olhar. Quando eu digo que uma viagem foram duas a tendência é a gente pensar que teve duas etapas – tipo assim, primeiros dias e outros xis dias. Mas houve aqui um cruzamento espaço-temporal de duas viagens que se manifestou por meio de uma intensidade emocional que ainda não achei jeito de colocar em palavras, embora esteja mais ou menos tentando. Nesta viagem algo bonito em mim deixou de existir. Mas alguma outra coisa bonita surgiu ali. Não digo que no mesmo lugar, substituindo. Em outro lugar. Mas teve isso. Seja como for demorou o suficiente pra que o cheiro do meu apartamento chegasse a ser nostálgico.
Queria poder dizer “vê aí o que você quer fazer”. Pra ele poder ouvir que a escolha é dele. Quer tentar? Beleza, conte com a gente. Acha que tá na hora de ir? Ta tudo certo, você deixou tudo em ordem, a gente se vira. Mas, bom, dada as circunstâncias altamente improváveis eu só posso acreditar que ele bancou a bucha de tentar, porque sinceramente tem que ter tido algum esforço da pessoa pra sair de “estamos fazendo todo o possível mas é muito muito grave” pra o que quer que seja que a médica tenha a dizer do que estamos vendo agora. Vai ser foda, de um jeito totalmente imprevisível, mas bom, se é isso vamo pra cima. Respira fundo (assim que você puder, porque enfim, toda a parafernalha da uteí) e vamo né.
Acho que quero acreditar que a luta pela vida é um esforço ativo mesmo de um corpo sedado e todo fudido, porque se me trouxessem de volta sem minha anuência, dependendo das circunstâncias, eu ia é ficar muito puta. E não sei o que ele pensaria. Bom, acho que vou saber em breve. E vou ter que dizer pra ele que luto dá um trabalhão e que é uma sacanagem eu ter que fazer isso duas vezes – quinta passada e na hora que ele resolver ir de verdade. Vou cobrar, po.
Acho que acreditar que a vida é sagrada e que a vida é o fim em si dá às pessoas um senso de que há pelo que lutar, de que há uma coisa boa e uma ruim para acontecer. Eu acho que não tem nada de bom uma pessoa dilacerada numa uteí, com a barriga talhada, recuperando de uma semana de sedação e tubo, tendo que fazer químio e rádio pra tentar continuar macetando uma caralha de um câncer cuja origem nenhum exame de imagem encontrou, enquanto recupera de uma cirurgia com bolsa de colostomia e sei lá quais sequelas. Mas isso sou eu, que que eu sei afinal de contas.
O luto temporário foi compartilhado com as descobertas de novos (e, sinceramente, dos melhores) estabelecimentos veganos da cidade, da possibilidade de correr na ponte, de novas formas de experienciar lugares conhecidos, e de expressões de um amor que eu já conhecia mas que segue me deixando boladíssima. Honestamente é improvável que eu nunca tenha amado tanto, tenho lá meus trinta e tantos e sou uma pessoa emocionada. E também não vou dizer que nunca tenha sido amada. Mas do jeitinho que está sendo, olha, eu não tenho nem roupa pra isso. Todos os dias sou pega de surpresa e dou um sorrisinho inevitável. Obrigada por esses dias, meu amor. Pela fuga desta cidade gelada. E eu sei que valeu a pena pra você também.
Não vou me meter a falar de amor quantitativamente, mas qualitativamente não acho que existam dois amores iguais (até a ideia de amor flexionar número é engraçadinha). Estar com esse amor em lugares da minha vivência (quase sempre intensa porque enfim meu jeitinho) da juventude não foi tão maluco quanto eu achava – na verdade foi natural e foi tão absurdamente pacífico. Pensar que precisei de tantos reforços positivos pra não desistir de convidá-lo a descer a serra (por causa da coisa toda de Agaú e uteí) é absurdo. E se os dias duraram semanas por causa do Agaú e da uteí, essa distorção temporal se estendeu só parcialmente aos nossos passeios veganos. Ao mesmo tempo em que eu não aguentava mais ficar naquele mundinho eu queria nunca mais ter que voltar pra cá.
Eu sei lá se a vida tem um valor intrínseco, se ela é o fim em si (normalmente acho que não). Mas tenho motivos pra acreditar que a vida vale a pena. E já que ele vai viver vamos ter que fazer valer a pena nem que seja na marra. Aliás, vai ser na marra. Porque puta merda o que está pra vir. Mas vai se dar um jeito.