Caderno de tanto

Eu estava passando um café na hora em que o corpo do meu pai parou de respirar – cronologia de um luto que se instala muito devagar

No domingo 20 de setembro de 2026 conversei bem pouco com meu pai. Fiquei só uma horinha na internação do Cepon, onde ele dividia quarto com outro paciente, separado por uma cortina. Passei essa horinha mais com minha irmã do que com meu pai, que durante a maior parte do tempo dormia, cansado do inferno que vivia naquelas semanas e dopado de morfina. Eu só tinha uma hora porque ia pra rodoviária pra voltar pra Curitiba. Quando cheguei expliquei a ele sobre o livro que minha mãe havia lhe dado por meu intermédio, e ele se animou com a perspectiva de ter três livros novos pra ler – os dois que eu havia lhe dado no dia anterior por ocasião de seu aniversário, com dedicatória, e mais esse que minha mãe havia separado pra eu levar. Um livro de quadrinhos do André Dahmer que ele ia adorar, um sobre a revolução vietnamita do Visentini, e agora um sobre a história do conceito científico de vida (eu acho, esse eu não li), do Cesinha. Depois dessa interação, quando falei que ia voltar pra casa, ele me pediu que avisasse se haveria chuva na estrada, reproduzindo uma preocupação constante com as dezenas de vezes que eu já havia feito de ônibus os trajetos entre Curitiba e Florianópolis e vice-versa. Pediu que eu avisasse por zap quando chegasse a Garuva, que, segundo ele, tem esse nome porque combina com chuva. Dei-lhe um beijo, peguei uma vez mais em sua mão e lhe disse “te amo”. Depois, no ônibus, mandei as mensagens como ele pediu.
[17:57, 20/09/2026] gui: Flu ganhou do corinthians lá
[18:47, 20/09/2026] gui: Em joinville tempo seco e firme
[19:36, 20/09/2026] gui: Nada de chuva em garuva
[20:17, 20/09/2026] gui: Nada de mais em são josé dos pinhais
[20:42, 20/09/2026] gui: Tudo em riba em curitiba
[21:04, 20/09/2026] gui: Na rodoviária
[21:18, 20/09/2026] Pai:😘
Eu não sabia que essa seria nossa última interação.

No dia 2 de julho de 2026, quinta feira, era meu primeiro dia de férias, e último antes de viajar a Florianópolis para passar uns dias com meu pai, que fazia as sessões de quimio e parecia se recuperar melhor do que o esperado. Fazia um dia lindo de sol em Curitiba no meio do inverno. Eu e meu namorado fomos à Decathlon pra eu finalmente comprar um tênis novo de corrida e uma mochilinha de ataque, além de namorar uma blusa de corrida amarela que acabei não comprando. Escolhi a data pensando no jogo das oitavas entre Brasil e Noruega. Já havia visto com meu pai o Brasil arrancar um empate contra Marrocos na estreia, na nossa primeira interação após o início do tratamento de câncer. Ele estava animado e otimista, e, apesar do medo, nós também estávamos. Naquele dia eu e namorado fomos correr no Parque Barigui, coisa que nunca havíamos feito e que depois não voltei a fazer (normalmente corro no Passeio Público ou nas ruas do Centro, Rebouças, Centro Cívico, Guaira, Parolin…). Foi uma das corridas mais agradáveis de que me lembro em muito tempo. Enquanto nos dirigíamos a um restaurante indiano para almoçar recebi no zap, no grupo com meu irmão e irmã, atualizações sobre a última sessão de quimio e as perspectivas que se avizinhavam. Os exames ainda tinham sido totalmente inconclusivos sobre a natureza, origem e localização do câncer, mas a terceira sessão de quimio havia sido um sucesso. Ele estava sem qualquer efeito colateral e o volume na têmpora havia retrocedido até quase sumir. Namorado me disse “viu, mo?, seu pai está macetando esse câncer!”. Eu ainda estava bem assustada com a perspectiva de trinta e sete sessões de rádio na cara ao longo de sete a oito semanas, que iam deixá-lo muito debilitado, mas a mensagem mais importante era aquela em que minha irmã dizia “O objetivo do tratamento, neste momento, é curativo”. A ideia era que o tratamento terminaria bem pertinho do aniversário dele, em 24 de setembro.

Meu pai sempre gostou de aniversário. Fazia de conta que não, medo de envelhecer e tudo o mais, mas sempre quis fazer alguma coisinha. Jantar na Basilico, nossa pizzaria adotada desde que nos mudamos para Florianópolis em 2003, ou alguma outra coisinha tranquila de quem nunca gostou de agito. Mas o aniversário dele de 2026 seria o primeiro em trinta e sete anos em que não falei com ele. Não o primeiro em que não estivemos juntos, isso já havia acontecido uma vez ou outra, mas o primeiro em que nem sequer nos falamos. Dois anos antes, em 2024, o aniversário dele havia sido a ocasião em que, sentados a uma mesa no Royalty, eu pela primeira vez lhe expliquei sobre minha transição. De gênero no caso. Foi uma conversa melhor do que eu esperava, mas que só o deixou confuso. Ele havia ido a Curitiba para um show do Eric Clapton no estádio do Athletico Paranaense que coincidentemente era perto do aniversário dele. Eu não fui ao show. Estivemos juntos um pouquinho, eu queria mostrar pra ele e pra minha madrasta meu apartamento novo, na São Francisco, mas antes tinha que ter essa conversa. Acabou que ele não voltou a tocar no assunto até 1º de março de 2026, a poucos dias da minha defesa de doutorado, quando, na varanda da casa nova dele, tivemos uma das melhores conversas que me lembro de ter tido com meu pai na vida. Tomando cervejas e fumando cigarros que, quinze dias antes de um diagnóstico de câncer, ele não fazia ideia que seriam as últimas cervejas e últimos cigarros da vida. Voltei pra casa da minha mãe com a tranquilidade de quem já não tinha qualquer assunto pendente – eu podia compartilhar tudo, tudo, tudo da minha vida com meu pai. E já fantasiava as férias de julho, quando levaria meu namorado para conhecer Floripa, e nessa viagem faríamos uma visita pro meu pai – a verdade é que eles teriam se dado muito bem.

A mudança de casa foi um drama que o consumiu por muito tempo nos anos anteriores. A mudança de zoneamento da rua do Pantanal em que ele havia comprado em 2007 a casa em que esperava envelhecer e morrer, as dívidas impagáveis contraídas após a constatação de que a classe trabalhadora é descartável não importa o quão excepcionalmente tenha contribuído em sua área de atuação, a dificuldade em encontrar outra casa grande e confortável pelo valor que sobrasse da venda da casa descontando as dívidas, e o alívio quase sobrenatural de ter encontrado no Saco dos Limões uma casa esquisitinha, cheia de idiossincrasias, e com uma varanda enorme com vista para a Baía Sul. 2026: o ano da aposentadoria após muitos anos de rebaixamento como PJ, o ano do sossego na casa nova, o ano de botar a vida em ordem e finalmente ter o sossego que ele tanto havia merecido, o ano de comer coisas gostosas e tocar piano e montar modelos de tanques da segunda guerra, o ano de curtir a casa nova com o amor da sua vida e com a filha, com as visitas eventuais minha e do meu irmão. O ano de finalmente.

Não vi com ele a humilhante e ultrajante derrota do Brasil para a Noruega, consolidando a pior seleção brasileira de todas as Copas do Mundo. Ele havia acabado de voltar do hospital, onde havia passado mais de vinte e quatro horas em cadeiras de corredor, para investigar uma diverticulite que lhe havia tirado o prazer de pintar modelos de navios de guerra na mesa da cozinha numa prosaica manhã de sábado. A volta pra casa seria breve. Ele ainda tinha a esperança de que não precisasse operar – como disse no zap, “O médico do Cepon me encaminhou para avaliação por cirurgião, mas acho que não deve ser o caso. Vai ser dieta líquida, antibiótico, etc até esfriar a inflamação”. Mas logo no dia seguinte à eliminação do Brasil ele voltaria ao hospital para operar a diverticulite. Três dias após uma sessão de quimioterapia, aos setenta anos de idade. Meu pai era médico, ele sabia que aquilo tinha tudo pra dar errado. Na porta do HU vi quando ele deu um beijo apaixonado na minha madrasta antes de ir pra mesa de cirurgia. No dia 9 de julho meu pai morreu pela primeira vez e eu conheci o luto pela primeira vez.

Quando o visitei em 3 de agosto na internação do HU eu falei pra ele que ia ter que viver o luto pela morte do meu pai duas vezes – a de 9 de julho e a de quando ele morresse de verdade. Ele achou graça. Perguntei se e a gente tinha razão de achar que ele tinha morrido. Ele disse que sim, que ter escapado daquela situação era quase inexplicável. Em 8 de julho eu o havia visitado pela primeira vez na UTI, junto com minha madrasta, e ele estava bem humorado, conversando muito, trocando altas ideias com a médica. No dia seguinte, na hora em que fomos visitá-lo, a liberação para entrarmos demorou muito. A médica então veio nos explicar o que havia acontecido. Após um choque séptico ele estava sedado e entubado tomando os antibióticos mais fortes jamais concebidos pela indústria farmacêutica. A gente sabe o que significa quando a plantonista diz “estamos fazendo todo o possível, mas a situação é muito muito grave”. Ali eu sabia que meu pai não chegaria ao dia seguinte. Saí da UTI do HU chorando, encontrei meu namorado que me esperava na praça central da UFSC, e que, animado, me comentava sobre como é bonito aquele campus. Falei “meu pai não passa de hoje”, ele me abraçou, chorei mais um tanto, e disse que queria ir almoçar. Porque não há no mundo o que me faça não querer comer e era hora do almoço. Fomos ao Mamma Veg, bufê vegano ali no Córrego Grande, onde chorei mais um tantinho. Qual é a chance de tocar na playlist de um bufê vegano The Long and Winding Road, uma das músicas preferidas do meu pai, e que ele gostava de tocar no piano?

Só que eu não sabia que aquela seria apenas a primeira morte do meu pai. As visitas na UTI são muito limitadas, então tivemos que voltar pra casa da minha mãe. Aquela viagem foi toda meio surreal – a iminência da morte do meu pai se alternando com momentos de uma viagem de sonho com meu namorado na cidade onde morei durante a maior parte da minha vida. Eu achava que não podia querer que ele pegasse o carro e fosse me visitar, mas fui contrariada em momentos diferentes por meu irmão e por duas amigas, além dele próprio, que, felizmente, não me permitiu me entregar para uma penitência sem sentido. E a permanência dele comigo naqueles dias foi tão extraordinariamente importante que eu nem sei explicar.

Ao longo dos dias seguintes os sinais vitais dele foram melhorando de forma surpreendente. Eu tinha muito medo, agora, que, superada a morte, a vida que restasse fosse menos uma vida e mais uma tortura. Como cicatrizar o talho de fora a fora na barriga? Como retomar o tratamento do câncer? E as sequelas? Poderia haver sequelas neurológicas? Ele voltaria a andar? Eu queria dizer a meu pai entubado que ele poderia partir se quisesse. Mas não tive esse oportunidade. E ele não escutaria de qualquer maneira.

Meu pai só saiu da sedação depois que eu já havia voltado a Curitiba. Conseguimos conversar brevemente por trocas de áudio enquanto ele ainda estava na UTI, muito confuso. Entendi que, afinal, ele havia debelado a morte de forma quase inexplicável, e que, agora, era nossa responsabilidade fazer com que valesse a pena. Longo processo: semanas na internação do HU para cicatrizar a cirurgia, depois recuperar os movimentos, voltar a ganhar peso, para então avaliar junto à oncologista como recomeçar o tratamento de câncer que parecia estar dando tão certo. Mas, se é isso, vamos lá. Pra cima deles. Retomando a metáfora que meu pai havia adotado pouco após o diagnóstico, ainda em junho, é descer a rampa na areia da praia na Normandia e correr, correr, correr, para chegar ao outro lado sem ser atingido por tiros ou minas. Ele nunca considerou o Dia D da segunda guerra mundial um dia tão relevante para o desfecho do conflito no qual se tornou especialista ao longo de décadas de estudos diletantes, mas achou que a metáfora funcionava para a guerra que travava contra o câncer e agora contra outros inimigos que se aliavam ao câncer em um conflito desigual.

E não faltou vontade. Foram cinquenta dias de internação, dos quais eu só tive oito a seu lado no hospital, um pouco para estar junto, um pouco para dividir (um mínimo do mínimo) a tarefa do cuidado com minha irmã e minha madrasta, crescentemente desgastadas e carcomidas pela vida de hospital. No dia 8 de setembro, quando nos falamos por telefone, ele se emocionou muito ao lembrar que fazia o tratamento inteiro pelo SUS, incluindo as bolsinhas de colostomia e os materiais para manutenção que havia pego naquele dia no Hospital Regional de São José. Disse que, se alguém quisesse acabar com o SUS, ele mesmo pegaria em armas. Eu sugeri usarmos AK-47, a arma preferida dele, cujas virtudes aprendi ao longo de anos ouvindo meu pai contar detalhes minuciosos sobre aspectos bélicos da segunda e de outras guerras que ele se dedicava a estudar. Uma conversa afetuosa entre eu e meu pai pode envolver uma AK-47. Naquele dia 8 de setembro parecia que as coisas iam bem. Ele ainda não tinha perspectivas de reiniciar o tratamento do câncer, mas fazia com afinco em casa os exercícios da fisioterapia e se esforçava para comer bem e ganhar peso. O câncer crescia dentro dele, silenciosamente porém visivelmente por meio do volume na têmpora, mas se tudo havia começado tão bem lá em junho não havia por que não acreditarmos que recomeçar ia dar certo.

Eu só fui saber do diagnóstico em maio. 8 de maio. Quando minha irmã foi me visitar em Curitiba. Almoçamos no Viva, ela me contou que fazia planos para a aposentadoria do papai – incentivava que ele e a mãe dela entrassem na natação, chegou a pagar um Uber para irem ao cinema. Mas à noite, enquanto tomávamos um chope no Janaino, ela não conseguiu mais segurar e contou do câncer. Papai não queria que ela me contasse, queria ele contar, mas não tinha como ficar fingindo. Foi particularmente comovente quando ela disse que não era justo poder curtir o papai tão menos que a gente. Perder o pai aos trinta e sete anos, meu caso, já seria cruel, mas ela tinha então só vinte e sete. Minha irmã conheceu nosso pai aos dois anos de idade, quando ele viajou a Florianópolis para um evento em 2001 e se apaixonou por uma então jovem mãe solo. Até hoje lembro da primeira vez que a vi chamá-lo de pai, e achei aquilo muito legal. Isso ainda em Niterói, antes de ir todo mundo pra Florianópolis em 2003, antes da casa da Rua das Acácias e da adoção da Brigite, um dos grandes amores da vida do meu pai, da minha madrasta e da minha irmã. Antes da mudança para a casa dos sonhos em 2007, antes da adoção de cinco gatos e quatro cachorros, antes disso tudo meu pai se tornou pai da minha irmã, que quando nasceu em um Estado distante no sul eu não fazia ideia que seria minha irmã.

A perspectiva de que talvez eu perdesse meu pai aos trinta e sete anos só foi começar a ganhar forma já em setembro. Porque a história do câncer é assim. Má notícia. Opa, uma boa notícia! Outra má notícia. Mas agora mais uma boa notícia… outra má notícia. Diagnóstico. Tratamento começou bem! Diverticulite. Sobreviveu à cirurgia! Choque séptico. Sobreviveu! Cinquenta dias de internação com um talho que não fecha por nada e seguidas infecções. Foi pra casa, está fazendo fisioterapia e ganhando peso! Mais uma infecção, voltamos ao hospital, voltamos à estaca zero da recuperação dos movimentos. Ali eu comecei a entender que talvez não houvesse saída. Nessa segunda internação começamos a lidar com novos fantasmas - a recusa do corpo em aceitar alimentos nos assustava em um contexto em que ainda acreditávamos que ele devia voltar a ganhar peso para poder retomar a quimio. A paresia nas pernas indicava uma distância muito grande do retorno aos movimentos. A dor da frustração de lidar com retrocessos diante dos avanços observados poucos dias antes é muito difícil de explicar. Ali comecei a pensar que talvez não houvesse jeito de ganhar essa briga. E ele também.

No sábado 19 de setembro, meros onze dias após falarmos em defender o SUS com uma AK-47, falamos sobre morte. Ficamos só eu e ele na internação do Cepon, e, embora muito fraco e com um volume gigantesco na têmpora que já lhe deixava a boca torta, ele conversava bem como sempre havia conversado. E, estando só eu e ele, pudemos falar sobre vida e morte. Ele havia tido na manhã daquele dia a confirmação de que se trata de um câncer muito raro, na glândula parótida, e que todo aquele tratamento com quimio e rádio não teria resolvido. Ficamos uma hora falando sobre morte. Ele me pediu que segurasse sua mão. Falou que todo ciclo acaba. Falou que se chegar no outro lado e for chato ele vai ficar muito puto. Falou que ir pro beleléu deve ser mais legal que ir pro além. Falou que é um espírita agnóstico. Que só é espírita porque não é justo que todos tenham os mesmos pecados disponíveis para cometer em condições de vida tão díspares. Que a escola católica lhe dava medo de não encontrar seu pai no paraíso. Falou que todo ciclo acaba. Também falamos sobre a minha primeira blusa do Fluminense, que eu lhe pedi para me dar no ano em que o Fluminense jogava a Série C e eu começava a gostar de futebol. E falamos sobre eleições, e sobre a ironia que era um ex deputado da Alerj falando de segurança pública. Ele não votaria nessa eleição, mesmo que chegasse vivo. Ainda não sei se chega vivo, mas não chega em condições de levantar pra votar. A eleição é daqui a três dias e eu não aguento mais.

Naqueles dias de julho na UTI eu chorei tanto que nem sei. Corri com namorado na Ponte Hercílio Luz e na Beira-mar Norte, treinamos no Parque de Coqueiros, comemos comidas veganas por toda a cidade, tomamos cafés gostosos, e chorei, chorei, chorei, chorei. Foi meu primeiro luto. Ali eu falei alguns absurdos. Dependendo do que viesse depois da UTI, por amor a meu pai, eu preferia que ele ficasse pelo caminho. Vendo o que aconteceu depois não me arrependo do que disse. E passei a ter companhia de outras pessoas que também o amam muito.

De toda a choradeira dessa cronologia o dia mais duro foi 24 de setembro. Aniversário do meu pai. Dia em que, esperávamos meses antes, ele teria concluído o tratamento. Nesse dia ele foi pra casa depois de mais essa internação. Não era pra ter ido, mas como a internação era só pra tratar mais uma infecção, e o antibiótico já havia feito efeito, ele recebeu alta. Quem o levou pra casa foi meu tio, que dirigiu 1200km de Niterói a Florianópolis pra poder estar junto no dia do aniversário. Meu tio já havia feito uma visita quando todos achávemos que meu pai estava em seus últimos dias, em 11 de julho. Eu fiquei sabendo de sua visita enquanto fazia agachamento búlgaro no Parque de Coqueiros. Meu tio radicalmente reacionário não fazia ideia da minha transição e eu fiquei apreensiva. Mas não deixaria de ver meu pai na UTI por isso. Meu tio pode ter estranhado alguma coisa na minha aparência, mas, sinceramente, isso não importou naquele momento. Enfim. Meu tio voltou a Florianópolis no aniversário do meu pai, mas nessa ocasião não nos vimos. Eu havia feito uma visita no fim de semana anterior e planejava uma próxima.

No dia 24 de setembro telefonei pro meu pai onze e meia da manhã, quando saía do trabalho pra almoçar. Meu horário no serviço público municipal é das 8h às 12h, das 14h às 18h, mas a aflição de ligar pro meu pai era tal que resolvi sair meia hora mais cedo. Quem atendeu foi minha madrasta, que atendeu no carro. Ela estava indo pra casa buscar roupas pra ele poder voltar pra casa. A ligação estava horrível, não entendi quase nada. Ela parecia animada. Falei que ligava mais tarde. Liguei de novo quando saí do expediente, ninguém atendeu. Liguei de novo enquanto caminhava pela João Bettega do Terminal do Portão para o apartamento do meu namorado, mas ninguém atendeu de novo. Mandei mensagem pra minha irmã. Ela disse que não teria como falar com ele hoje. Fiquei sem entender.

[19:21, 24/09/2026] Mana: amor, você sabe que o pai tá partindo, né? Talvez ele tenha poucas semanas. Ontem conversei com o Gus sobre ele vir se despedir do pai. O tio Henrique já veio hoje, e a tia Adriana parece que vem daqui a uma semana.
[19:21, 24/09/2026] Mana: Eu sei que você esteve aqui recentemente, mas, caso queira fazer mais uma visita e se despedir dele, queria te avisar

Entender que acabou não é fácil mas é necessário para que a vida não se torne a tortura que eu tinha medo que se tornasse. No dia 9 de julho, na hora em que eu saí da UTI vivendo o luto da primeira morte do meu pai, vi a esposa dele com o corpo o mais colado que podia no dele, implorando para que ele ficasse um pouco mais. O amor se manifesta de infinitas maneiras. Mas eu nunca seria capaz de não reconhecer o amor monumental, de escala astronômica, que eles construíram ao longo desses vinte e cinco anos. Ela pediu e ele ficou um pouco mais. Eu entendi e acolhi a escolha dele (que não é uma escolha porque essas coisas não existem) e fiz tudo o que pude para que o que viesse depois disso valesse a pena. Sei que meu irmão e irmã fizeram o mesmo.

No dia seguinte ao aniversário do papai, em 25 de setembro, telefonei pra minha irmã. Ficamos uns quinze minutos falando. Ela parecia muito lúcida e ciente do que estava acontecendo – “ele tem poucos dias” não era um catastrofismo, era uma constatação muito bem fundamentada. Depois de voltar pra casa no dia do aniversário ele parou de comer e de tomar qualquer remédio que não fosse pra dor. O câncer havia se tornado dono do corpo dele, e ele sabia disso. Agora era esperar. Em menos de doze horas voltaram pro hospital. Durante todos esses meses, creio, conseguimos não suspender inteiramente nossas vidas, dentro dos limites possíveis – claro que é mais difícil para quem mora junto com ele. Nesse tempo, mesmo tendo aumentado minha frequência de viagens, de contatos e de choradeiras, me mantive trabalhando, correndo, treinando, fazendo muay thai, comendo comidas gostosas, tendo dias gostosos e bonitos com meu namorado gostoso e bonito. Mas entendi que agora era hora de suspender mesmo. De gastar os dias de férias que ainda me restavam, e provavelmente emendar esses dias em uma licença-luto. Essa conversa por telefone foi sexta. Decidi que teria mais um final de semana em Curitiba e viajaria segunda 28. Tinha um motivo prático – eu tinha que buscar meus medicamentos de uso contínuo na farmácia de manipulação na segunda. Mas foi um pretexto pra ter um último momento bom, respirar um ar, antes de uma semana que eu sabia que seria impossível.

E foi um daqueles finais de semana lindos e quentes entre um ciclone e outro no meio do Super El Niño de setembro de 2026, que traz um ciclone por semana. E foi muito bem aproveitado, com atividades militantes, sinuca, corridinha de 10km, passeio de bicicleta, almoço gostoso, café especial e Parada na Santos Andrade. E quando voltava do Páprica com pessoas queridas falei com meu irmão pelo telefone. A notícia era de que a expectativa era a partida do papai entre vinte e quatro e quarenta e oito horas. Não foi bem assim.

Viajei na segunda 28 de setembro quatro e meia, então só cheguei pra jantar uma pizza na casa da minha mãe. No outro dia acordei, tomei café, fiz meu treino, tomei banho, comi o resto da pizza e fui ver meu pai no Cepon. A essa altura eu, meu irmão e minha irmã já falávamos abertamente sobre como esperávamos que ele partisse logo. A vida não é o fim em si. A vida não é sagrada. A vida tem que fazer sentido, e ali naqueles últimos dias a gente entendeu que o melhor gesto de amor que a gente podia ter era esperar que aquele sofrimento acabasse logo. Quando cheguei ao Cepon na terça 29 de setembro dei um abraço forte na minha madrasta e choramos juntas. Aliás, hoje é dia 1º e acho que o último dia em que não chorei foi 23 de setembro. Ela falou que estava rezando para que ele descansasse logo. Mas, bom, as coisas sobre as quais não temos qualquer controle.

Meu pai se irritava profundamente com a indignidade de um corpo debilitado. Ficava especialmente irritado em todas – disse todas – as ocasiões em que tinha que fazer xixi num recipiente, se esforçando muito para ficar em pé ao lado da cama, porque já não tinha força nas pernas para caminhar. Um talho de fora a fora na barriga, uma bolsa de colostomia e paresia nas pernas. Tudo muito ruim. Mas fazer xixi ser um esforço monumental era demais pra ele, que em casa vinha se esforçando pra poder voltar a fazer as coisas normalmente poucos dias antes. Agora, nesta semana que julgávamos ser a última, seu corpo já não levantava, seus braços já se mexiam muito pouco, suas falas eram grunhidos sem sentido. E ele gesticulava em direção às partes pra pedir ajuda pra fazer xixi. Já não havia mais quase o que sair. Seu corpo já não recebia qualquer nutriente desde a última vez em que comeu, justamente no dia do aniversário, e o soro era em quantidade reduzida (agora já não tem soro). Na terça 29 ainda falei um bocado de coisas, chorei um bocado de choros, e estive com minha irmã vendo os poucos movimentos que seu corpo fazia. Na hora em que decidi ir embora pra casa (até porque havia chegado tarde e precisava fazer mercado) minha irmã desceu comigo pra pegar um pão de queijo no posto de combustível, torcendo para que fosse um pão de queijo frio e molinho, do jeito que ela gosta. Quando falei sobre combinar as visitas do dia seguinte ela falou que esperava muito que não houvesse um dia seguinte. Nesse momento os dias são excepcionalmente longos.

Naquela noite fui jantar com mãe e irmão no Top Market. O nome desse lugar é horrível. A proposta não é muito melhor – é uma espécie de praça de alimentação com uma arquitetura um tantinho mais sofisticada. Mas ali tem boas opções veganas pra mim – um árabe, um poke, e, eu descobriria, um tailandês muito bom. Me lembrou os dias de julho em que eu e namorado saímos desvendando os rangos veganos desta cidade. Incluí o tailandês do Top Market entre as alternativas para a próxima vez em que ele venha. E comendo comidas gostosas falamos sobre vida e morte. E torcemos para que acabasse logo.

No início, pouco após o diagnóstico, meu pai mencionou, assim en passant, ampassã, a possibilidade de tentar uma imunoterapia, perspectiva inovadora e promissora para o tratamento de câncer no futuro próximo. Isso ele teria que judicializar pra conseguir pelo SUS. Era só uma ideia distante. Ele voltou a mencionar essa ideia no sábado 19 de setembro, quando chegou inclusive a retirar uma amostra do negócio do pescoço para fazer testes laboratoriais e avaliar a viabilidade técnica da imunoterapia. Mas tudo degringolou tão rápido que nem deu tempo.

Estou sentada na poltrona ao lado do corpo do meu pai, que respira com dificuldade, e sei que nunca mais vou estar com ele. Que agora é só um corpo se esforçando para manter as coisas minimamente funcionando até que não seja mais possível. Faz uma semana que não entram nutrientes nesse corpo. Faz uma semana que ele não fala. Faz uma semana que ele não está mais conosco.

Passou a terça e chegou a quarta. 30 de setembro. Enquanto eu e irmão almoçávamos de novo no Top Market (dessa vez eu comi um poke a base de arroz e tofu que também estava muito bom) nossa irmã mandou mensagem dizendo que a médica falou que ele já tinha falência dos órgãos e que restavam poucas horas. Eu não sei o que isso quer dizer, mas me parece que é tipo “ele está morrendo mais do que estava ontem”. Dali fomos ao cemitério para comprar o lote do último endereço do papai e deixar tudo encaminhado para a hora em que o corpo desligasse. Pra não ter que tomar decisões, pra ser só um telefonema e um pix (muito caro). Nosso pai havia falado explicitamente, com todas as letras, que era pra comprar o caixão mais barato que tivesse, e foi esse que reservamos. Em seguida voltamos ao Cepon para visitas muito breves, porque na quarta uma multidão queria se despedir, e só pode subir uma visita por vez. O Cepon até flexibilizou os horários, mas manteve a regra – na internação só acompanhante e uma visita por vez. Eu fiquei só cinco minutos. Falei mais algumas coisas pra ele, chorei mais um tanto. Agora já não havia movimentos. Não havia mais caretas de dor, movimentos sutis dos braços, nada. Só a respiração difícil de um corpo vivo a revelia dos fatos. Quis ir embora logo para que toda aquela gente pudesse subir e se despedir. Minha irmã me lembrou que essa podia ser a despedida, mas lembrei a ela que a despedida já tinha acontecido no final de semana anterior, quando ele me pediu para avisar se tinha chuva em Garuva.

Fui pra casa e fiquei esperando uma notícia. Cozinhei um PTS com molho de tomate e um macarrãozinho, jantei com irmão e mãe que pediram comida por iFood (ele uma crepioca, ela um hamburguer), conversamos, choramos. E o pulso ainda pulsa.

Hoje, 1º de novembro, teoricamente uma quinta-feira, chorei com a médica. Já não há sequer soro, só morfina. Seu corpo respira com dificuldade em um hospital ridiculamente barulhento, atordoante, com televisão ligada, áudio de zap sem fone, apitos mecânicos, conversas em voz alta, ruídos indistintos de atividades humanas diversas. Se meu pai conseguiu ouvir o que eu, Gus, Layana e Nara lhe dissemos nos últimos dias ele já sabe que pode partir. Mas acho que nem isso a gente escolhe. Em 3 de agosto eu lhe perguntei se, como médico, e agora diante da própria experiência, ele acreditava que uma pessoa sedada e entubada tinha condições de “lutar pela vida”, se havia um fator de vontade na cura de um choque séptico em um corpo debilitado por uma quimioterapia e uma cirurgia. Ele disse que não. E eu concordo com ele. Ou acredito nele, enfim.

E o pulso ainda pulsa.

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No dia 2 de outubro às 5h59 o corpo do meu pai deu seu último suspiro. A esposa dele, que não desgrudou de seu corpo até o último segundo, disse que foi bem isso – um último suspiro. Eu estava passando um café e não sabia. Quando terminei o café e estava vestindo a blusa do Fluminense para sair para correr recebi a notícia. Sete meses de um final difícil que não são nada diante de setenta e um anos de uma vida que valeu a pena. Obrigada por tanto, pai.