Caderno de tanto

a rua mais bonita da cidade

Registrar nossas memórias se torna particularmente importante quando a ameaça de transformação se torna mais eminente. Eu não sei quem é que eles querem de volta ao Centro, mas sei bem quem eles querem que saia para que esse retorno aconteça. Um projeto concebido e executado por gente que não conhece o Centro (que detesta o Centro, aliás), que definitivamente não é para as pessoas que moram no Centro. O projeto se legitima por uma profecia auto-realizável: a mentira da necessidade de repovoar o Centro eles tentam tornar verdade ao expulsar o povo indesejável que povoa o Centro. O projeto dessa gente nunca dá certo, porque eles não fazem ideia de onde estão pisando, mas até dar errado eles fazem muito estrago. O que quer que venha daqui em diante já terá transformado nosso mundinho. E por isso é importante contarmos nossa história.

Fazia menos de um mês que eu morava nesta cidade. Em uma noite insuportavelmente gelada uma colega de trabalho me convidou para uma exposição no Solar do Barão. Dali uma amiga dela sugeriu comermos um petisco. Quando chegamos à Rua São Francisco considerei imediatamente aquela a rua mais bonita da cidade – mal sabia eu que dois anos depois aquele seria meu endereço residencial. A amiga da minha colega nos apresentou o Janaino, e assim que finquei os pés ali comecei a construir um segundo lar. Logo que entrei o Bruno elogiou meus tênis, um par de tênis de quinta categoria que eu tinha comprado na Studio Z, mas bonitinhos até. Não duraram até o final daquele ano. Mas naquela noite comemos porções de grão de bico e de lentilha e de aipim. Acho. E eu, que já era vegetariana mas ainda não vegana mas simpatizante do veganismo, decidi que frequentaria aquele espaço. Eu só não sabia ainda o quanto. Poucos dias depois, numa tarde ensolarada de sábado, faltou água no prédio e eu resolvi descer pra tomar uma cerveja sozinha. Lembrei do Janaino e fui pra lá. E assim a relação foi se construindo até se tornar meu lugar de conforto para um chope solitário ouvindo post-punk após o expediente. No começo a Nati e o Bruno se lascavam de trabalhar. Ousados, resolveram abrir um segundo Janaino, no Largo da Ordem, no lugar do antigo 14 Bis, bar que eu já gostava de frequentar. O Janaino do Largo passou a dar mais trabalho, a ter mais movimento, e Nati e Bruno passaram a dedicar mais tempo à filial que passei a chamar de “Janaino de cima” em oposição ao “Janaino de baixo”. Aí o Jack passou a tocar o Janaino de baixo, onde hoje sou chamada pelo nome por quem quer que esteja fazendo taxa naquela noite. O padrão de qualidade do pão com bolinho e das porções parece ser uma obsessão da Nati, militante da causa vegana. O Janaino de cima acabou virando um lugar de samba e choro, mas também de shows de hard core e de metal, mais de acordo com a preferência da Nati.

Quando abriu o Janaino era o único bar daquela quadra da São Francisco, onde anos antes, soube por relatos, havia sido o pico mais agitado da noite da cidade (voltaria a ser). Dali a pouco abriu em frente ao Janaino o El Guatón, que passou a integrar o agitinho incipiente da São Francisco, incluído na doideira cicloativista que marca inevitavelmente a história da rua mais bonita da cidade (a minha). Pouco depois se somou o É Dino, idealizado pelo Jefferson, que depois abriu na esquina com a Presidente Faria o É Dino Cultural, e depois fechou o É Dino original, que virou o infame Moe’s, que fechou depois que seu proprietário cometeu um homicídio, e depois deu origem a um bar que sinceramente agora não lembro o nome. O Guatón fechou e ali abriu o Spunk. Ao lado do Janaino a Nati idealizou o Boi Brabo, também um bar vegano, só que com litrão em vez de chope e salgados na estufa em vez de pão com bolinho. Quando o Boi abriu identifiquei atrás do balcão aquele menino que trabalhava no Semente de Girassol, também ativo na causa vegana. O Eder acabaria se tornando um amigo, e o Boi um lugar de conhecer pessoas queridas e de mudar radicalmente a minha vida naquela tarde de domingo de outubro de 2025. O alvará de mesas e cadeiras do Boi Brabo na calçada foi a minha maior conquista como arquiteta e urbanista.

A demografia da São Francisco foi se transformando – qualitativa e quantitativamente. As noites que passei em 2023 e 2024 tomando cerveja em pé com pessoas queridas na calçada foram se tornando mais intensas, movimentadas, lotadas, barulhentas, caóticas, ao longo dos anos seguintes. E é isso que incomoda. E é contra isso que o poder se volta, e é contra esse poder que nos voltaremos em reação.

Este é um ensaio para sair da inércia, um primeiro momento. Não sei se vou conseguir continuar, mas espero alimentar esses registros, essas memórias, seja com anedotas de histórias vividas, com conversas com as pessoas, com denúncias raivosas contra os porcos que executam a ordem central desta cidade de proibir a alegria.